Textos e reflexões de Rodrigo Meireles

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9.8.13

Cine Holliúdy

No dia 9 de agosto estréia a comédia brasileira (e genuinamente cearense!) Cine Holliúdy, de Halder Gomes. O filme, selecionado em diversos festivais no Brasil e no mundo, ganha as salas de cinema de Fortaleza prometendo boas gargalhadas e alta dose de humor. Utilizando gírias e frases típicas do vocabulário cearense, o filme narra a montagem de uma sala de cinema numa cidade do sertão do Ceará.

Em meio a trama, muita comédia e o medo da chegada da televisão, que poderia arruinar a diversão instalada no sertão e que passou a encantar diversos espectadores. Cine Holliúdy é um filme que merece a atenção do cearense e convida a todos os brasileiros a conhecerem esta terra especial, que revela uma cultura própria.

Já li alguns comentários de cearenses criticando a obra e afirmando que não se identificam com o jeito de falar apresentado no filme. No entanto, o fato é que  as expressões utilizadas no filme são autênticas e bastante utilizadas no Ceará, apesar de que muitas pessoas tendam a ignorar isto e a rejeitar este jeito cearense de ser. É claro que no filme as expressões apresentam certo exagero e uma boa dose de escracho para garantir mais risadas, já que se trata de uma comédia. Contudo, isso não significa que tais expressões não existam no cenário local. 

Convido a todos a assistir o trailer oficial e prestigiar mais esta obra de arte. Boa diversão!



A estreia em outras cidades do Brasil acontecerá com data a ser marcada.




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9.10.12

Comédia Intocável!

Se você aprecia uma boa comédia, sem apelações e com um toque de profundidade, assista o filme "Intocáveis" (França, 2011). O grande sucesso francês do momento é uma comédia bem elaborada, baseada em fatos reais, que destaca o relacionamento entre um personagem da periferia e um milionário tetraplégico.

Em divertidos encontros, o filme revela o desenvolvimento de uma amizade sincera, autêntica e espontânea entre dois personagens de origens bem distintas, que resulta em ótimas gargalhadas. O que chama atenção nesta comédia é o fato de  que para rir não é preciso apelar para o ridículo, destacando a profunda e sincera relação que nasceu entre os dois. Os personagens revelam-se sem máscaras e realizam um encontro cheio de contrastes em que ambos permitem se conhecer e aceitar as diferenças. Tudo, porém, com bastante leveza, música e ação.

O roteiro foi inspirado na vida do milionário tetraplégico Philippe Pozzo di Borgo e de seu enfermeiro, Abdel Selou (representado no personagem Driss). O primeiro escreveu um livro intitulado "O Segundo Suspiro", registrando cada frase em um gravador. Ainda vive na França com a família, mas o seu fiel companheiro casou-se há oitos anos, teve três filhos e mudou-se para o Marrocos. Com a própria história, eles mostram para o mundo de hoje que é possível superar as dificuldades, construir uma sólida amizade e ter uma vida feliz.





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19.8.12

Drogas e Cidadania

O Conselho Federal de Psicologia desenvolveu um portal na internet para esclarecimento das ações acerca das drogas, seus efeitos e tratamentos destacando que qualquer usuário é também um cidadão e precisa ser antes de tudo respeitado. Só teremos uma sociedade que viva bem se sabemos reconhecer em cada pessoa um cidadão, mesmo se este está precisando de ajuda e clama por socorro. Nos últimos meses, temos assistido a uma onda de intolerância aos usuários de drogas ilícitas, que estão sendo varridos das ruas numa reprise do modelo higienista como se fossem os únicos culpados por este problema. Tolerância e respeito são palavras-chave para qualquer encontro e sem estas palavras, qualquer usuário de drogas não passa de um ladrão ou de um vagabundo. Com tolerância e respeito, é possível escutar as necessidades de cada um e promover encontros saudáveis entre cidadãos e políticas públicas integradas.

Convido você a assistir uma sequência de 5 (cinco) pequenos vídeos especialmente preparados pelo Conselho Federal de Psicologia para esta discussão. Todos eles estão disponíveis no site Drogas e Cidadania. Recomendo!



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14.4.12

Xingu: entre índios e brancos

Mergulhe na aventura dos irmãos Villas-Boas e se encante com a beleza de nossas florestas enquanto descobre o triste destino das tribos indígenas que povoam a região. O filme Xingu, dirigido por Cao Hamburguer, retrata a história real dos irmãos Villas-Bôas desde o tempo em que foi convocada a "Marcha para o Oeste". Eles adentraram o Brasil para demarcar território, conhecer a área e verificar quem habitasse a região. Foi assim que encontraram os índios e começaram a se relacionar com eles. Após longas décadas de convívio, passaram a defender os direitos daqueles habitantes, pouco considerados pelo governo. Em meio a muita luta e a muita negociação, foi criado o Parque Indígena do Xingu, que resiste até hoje apesar das muitas ameaças de fazendeiros, ruralistas e madeireiros.

O filme revela uma belíssima fotografia, além de retratar a situação dos índios, desconhecidos do mundo ocidental e desde então cada vez mais dizimados, desrespeitados e ignorados pelo progresso tecnológico e industrial. Apesar da criação do Parque Indígena do Xingu, da FUNAI e de inúmeros benefícios ou leis de proteção ao índio, a verdade é que estas culturas ancestrais que marcam antropologicamente o nosso povo vivem com o descaso (e a ignorância) da opinião pública geral, sobrevivendo com "migalhas legais" e com as próprias forças. A construção da Usina de Belo Monte é só um exemplo desse descaso.

Confira e trailer e curta o filme!



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7.4.12

O Lorax e a consciência humana

Recentemente, estreou no cinema a animação "O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida", produção infantil que destaca o cuidado com o meio ambiente e os perigos da ganância humana. É um excelente filme para assistir com os pequenos, dialogar com eles sobre estes cuidados e reforçar a consciência por um mundo melhor, a começar por cada um.

O filme conta a estória de Ted, um garoto que, ao tentar realizar o desejo de Audrey, a garota por quem se apaixona, descobre o mundo devastado e dominado no qual vive. Ele mora numa cidade de plástico, onde tudo é aparentemente perfeito. Os moradores da cidade não imaginam que vivem uma vida de fachada, cuja alegria se resume a plásticos coloridos e tecnológicos. Quando Ted descobre que o desejo da garota de seus sonhos é uma árvore de verdade, ele inicia a procura e descobre que fora da cidade de plástico não há mais nada além de um mundo devastado e cinzento. É assim que ele conhece a história de seu planeta e se dá conta de como este chegou àquele estado. Lorax é uma criatura rabugenta que tenta proteger o mundo e a vida. Ele tenta conscientizar os homens da importância de preservar a natureza, mas a ação do homem, na sua liberdade, é sempre decisiva para o desenvolvimento do planeta e de tudo o que a vida nos deu.

É importante destacar que o filme retrata de maneira direta alguns problemas comuns ao homem de hoje, como a busca pelo sucesso financeiro em detrimento do meio ambiente, os perigos dos monopólios, o poder e o controle sobre as pessoas. A cidade de plástico onde mora Ted e sua família é totalmente vigiada por câmeras, que acompanham cada movimento, e é controlada por um magnata, O'Hare, que vende ar puro. Em um ambiente devastado, sem árvores, este magnata se aproveita da situação e das pessoas para possuir e manter o poder. É muito clara também a história da devastação, fruto da ambição de um outro homem, que queria ser rico e orgulhar a sua família. Lorax tentou contê-lo, mas o homem escolheu devastar. Quando matou a última árvore entrou numa profunda depressão e não havia mais como ganhar a sua riqueza. O garoto Ted, porém, mostra que é possível acreditar em um mundo melhor. Com coragem, ele leva para a cidade de plástico a última semente de árvore que se tem notícia. Para plantá-la, enfrentou o poder do magnata e o conformismo das pessoas, que pareciam tão de plástico quanto a cidade em que moravam.

Vale à pena assistir! Afinal, é diversão garantida para a criançada com direito a boas reflexões acerca da consciência ética humana.




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29.4.11

Tem Brasil no Rio!

Blu é uma arara azul que não sabe voar, mas que vive uma aventura com muito samba. O filme Rio é uma animação produzida pelo mesmo diretor de A Era do Gelo, o brasileiro Carlos Saldanha, e reproduz a cidade maravilhosa com gráficos surpreendentes, cheio de brilho e muita cor. É perfeito para a diversão de gente de todas as idades.

Surpreende em Rio a representação da cultura brasileira, sobretudo a carioca, marcada pela irreverência e a espontaneidade em uma terra de contrastes naturais e sociais. O filme Rio destaca as belezas da cidade homenageada, mas não esconde as problemáticas presentes, como a influência e o poder do tráfico. Consegue contar uma história divertida colocando em relevo alguns traços da cultura local de maneira leve e prazeirosa. É uma ótima pedida para relaxar e curtir após um dia intenso e estressante.

O filme está cartaz em salas de todo o mundo nas versões 2D e 3D. Confira o trailer e garanta o seu ingresso!






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14.1.11

O fenômeno Wikileaks e a transparência política

Nos últimos meses, têm causado furor as divulgações da organização Wikileaks, revelando informações diplomáticas sigilosas de vários países. Tamanhas revelações geraram revolta nos governos mais atingidos, sobretudo os Estados Unidos, que exigem o fechamento do site e a devolução dos documentos vazados. Novamente entrou em cena a discussão sobre a liberdade de expressão, com o risco de uma onda protecionista na internet.

Com esse fato, é importante que nos coloquemos diante de questões sobre a vida pública e a transparência que essa exige, bem como os limites éticos em relação à vida privada. Sobre a vida privada, como já denunciava Michel Foucault e o seu panoptismo, nota-se que seus limites foram bastante diminuídos nas últimas décadas e as pessoas são cada vez mais observadas. Contudo, não entrarei nessa questão. Sobre a vida pública, sobretudo em regimes democráticos, é preciso destacar que essa exige transparência.

O Wikileaks abriu a caixa preta de muitas operações - diplomáticas e militares - realizadas nos últimos anos e a reação gerada foi de constrangimento e de necessidade de proteção. O rei está nu. É do conhecimento geral que nos bastidores da política são emitidas declarações e decisões que ferem a ética e não respeitam o ser humano; em paralelo, é do conhecimento histórico que a humanidade evoluiu na constituição de seus direitos e na proteção de sua espécie. São dois conhecimentos que se justapõem, mas que são vividos na mais falsa harmonia. O "Top Secret" ou decisões que influem diretamente na vida (e na morte) de muitos cidadãos comuns, que nada ou pouco têm a ver com quem toma tais decisões, continua a permear o mundo diplomático e as supostas democracias modernas.

Recentemente foi lançado um documentário ("Wikirebels") que explica bem como nasceu e se desenvolveu a organização Wikileaks, esclarecendo os passos tomados pela organização nos últimos anos. Algumas informações são no mínimo curiosas, como o interesse inicial de governos numa ferramenta como essa. Não é preciso dizer que tal interesse durou até o momento em que os mesmos governos foram importunados com revelações estarrecedoras sobre suas próprias ações, como os crimes de guerra cometidos pelas Forças Armadas dos Estados Unidos no Iraque.

A vida pública exige transparência, sobretudo no que tange à vida de seres humanos e à preservação de seus direitos. Com isso, pessoas públicas, órgãos e governos não podem fazer o que bem entendem, a favor unicamente de seus interesses nacionais ou corporativos.

O debate está aberto e aceso em diversos canais da internet. Dê a sua contribuição e manifeste-se você também. Uma boa dica é assistir ao documentário mencionado, que disponibilizo logo abaixo. Dura cerca de uma hora e está dividido em quatro partes, que podem ser vistas clicando nas setas laterais ou esperando que se abram automaticamente após o término de uma parte anterior. Bom filme e boas reflexões!

 




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26.12.10

A rede social

É bem verdade que o homem é um ser social, dado que não pode sobreviver sem uma relação com algo ou alguém para além de si. Há mesmo quem diga que o homem está diretamente implicado com o mundo no qual vive, com suas nuances e peculiaridades; e há ainda quem afirme que o homem vive em meio ao social e cria laços significativos para a sua existência. No entanto, este mesmo homem, dos tempos modernos ao tempo de hoje, tem atravessado grandes mudanças e vivido alguns fenômenos típicos deste período histórico que parecem contradizer (ou paradoxalmente reforçar) a dimensão social de sua existência. Fenômenos como o individualismo e o niilismo são marcas do homem contemporâneo, como já previa Nietzsche nos anos 1800 e como já havia notado Heidegger em meados dos século passado.

O filme dirigido por David Fincher, "A Rede Social", confirma essa caraterização. Curiosamente um filme que narra a aventura de um nerd cuja principal forma de existência é o computador e que cria uma rede social virtual. A "rede social" que ele cria conecta milhões de pessoas de todo o mundo facilitando a troca de informações, mensagens e até de arquivos, a depender dos aplicativos utilizados. O filme "A Rede Social" não é só a história de criação de um site de sucesso, pois retrata a geração dos jovens de hoje, cada vez mais ávidos por informação e cada vez mais ágeis na obtenção de tal informação.

Sem uma análise mais criteriosa, é fácil perceber que estamos sempre mais conectados, todavia, sempre mais presos e dependentes ao computador, que virou amigo de confiança. A rede social de um suposto mundo virtual ganha força com a troca de informações do mundo real, o que me faz afirmar que mesmo o virtual é real. No entanto, o que está em jogo aqui é a dependência que as ferramentas tecnológicas podem exercer sobre a pessoa, uma vez que criam uma nova forma de intermediário na relação interpessoal. A pessoa tende a depender de algum instrumento para estabelecer ou mesmo fortalecer suas relações, pois ela mesma não é capaz de encarar o mundo e o outro de forma direta como forma de se proteger.

Com as diversas redes sociais espalhadas na internet, é possível perceber que se por um lado elas são bastante úteis para aproximar as pessoas, por outro podem ser prejudiciais quando criam dependência ou quando em nada contribuem para o florescimento das relações pessoais no dia-a-dia de cada usuário. Se há quem se conecte para dizer o que está fazendo ou sentindo para as suas centenas de "amigos", há quem se conecte porque não há amigos de fato e o computador é um intermediário na sua relação com mundo. Em suma, mesmo com a expansão das redes sociais na rede mundial de computadores, não há nada que se compare com os contatos pessoais. Facebook, Orkut, MySpace, dentre outras redes, precisam ser espaços bem utilizados, de modo a complementar ou enriquecer o universo pessoal de quem as utiliza. Do contrário, será somente mais uma evidência do crescente (e paradoxal) isolamento do homem de hoje.

Para finalizar, faço o convite para assistir ao filme citado e tirar as próprias conclusões! São muitas as questões que podem ser levantadas sobre este argumento e certamente poderei retomá-las em outras oportunidades. Enquanto isso, você também pode manifestar as suas reflexões clicando no link logo abaixo do trailer.






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11.12.10

Em busca de um sentido para a vida

Compartilho um interessante flash mob realizado em uma estação ferroviária na Bélgica que nos mostra, para além da beleza do evento, a necessidade de algo que movimente as pessoas, sobretudo em um mundo onde prevalece a noite cultural e no qual a escuridão dificulta a visão das coisas e do seu verdadeiro ser.

Percebo neste exemplo que o homem é capaz de fazer qualquer coisa para alcançar a alegria de viver, mesmo em um evento tão fugaz e aparentemente insignificante. Todavia, ainda está paralisado na sua falta de sentido, daí porque facilmente se encanta com a originalidade aparente da loucura. Atrevo a dizer que o homem de hoje ainda não foi capaz de compreender que a pior loucura é o vazio de sentido, e se admira com a aparente loucura dos que ousam fazer atos e gestos diferentes do que regem a norma social. Como podemos no vídeo abaixo, ao som de "Do-Re-Mi", do clássico do cinema "A Noviça Rebelde" (1965), vários dançarinos chamaram a atenção dos passantes de uma estação belga com seus passos coordenados, causando uma grande admiração.

Não surpreende o encanto que podemos colher nos olhares admirados das pessoas que observam ao redor. Todavia, para além do aspecto surpreendente do evento, que chama a atenção pelo inesperado, é possível enxergar na admiração de cada espectador a constatação de que também ele é capaz de fazer algo de diferente, mudando a sua rotina tantas vezes marcada por movimentos repetitivos que nem ele mesmo consegue explicar. Felizmente, embora o passo a ser dado em seguida seja mais difícil do que a constatação das próprias capacidades, é essa constatação que me faz entrever que o homem de hoje pode sair do niilismo que o marca e dar passos corajosos rumo a um sentido para a própria existência.






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25.11.10

O amor explicitado em "Hable con Ella"

Ao assistir Hable con Ella, de Pedro Almodóvar, ocorre-me uma visão metafórica sobre o Amor incondicional. Um Amor que vai além de conceitos hoje tão banais. No filme, é por causa do amor que sentem por suas mulheres que dois homens se encontram no hospital e ali constróem uma amizade verdadeira capaz de suportar até os limites da dor causada pela solidão e mesmo pelo sentimento de perda. Que Amor tão banal seria esse que rejeitaria uma situação menos constrangedora, abandonando assim dois "corpos que falam”?

Almodóvar traz à tona nesse filme um conceito de Amor mais global e humano, em que a palavra também pode ser uma ferramenta de integração e aproximação. Não posso expressar-me sem sentir o meu corpo que expressa, do mesmo modo que, se a pessoa é um ser-em-relação e não existe expressão sem sentimento de corpo, o meu relacionar-se a um outro passa também por um sentir aquele outro em meu corpo. Essas expressões corporais estão muito bem relacionadas no filme com o cinema mudo, em cujas cenas mostradas se faz uma analogia com a importância do expressar do corpo. Em suma, o corpo sente, seja eu mesmo inserido nesse corpo, seja o outro com o qual me relaciono.

Numa clínica em que Benigno (Javier Cámara) trabalha e acompanha pacientes em coma, se percebe uma relação nascente de uma grande amizade entre ele e Marco (Mario Grandinetti), que em seus momentos assistiam o coma das mulheres que amavam, Alicia (Leonor Watling) e a ex-toureira Lydia (Rosario Flores), respectivamente.

Em meio à trama de um encontro e um reencontro entre os personagens, existe uma outra metáfora que pode ser contemplada: o Amor como um anseio de completude individual. Refiro-me, com isso, a um Amor que realiza, que completa, pois essa interação do corpo-expressão-do-ser deverá existir sempre, dado que não existe com o que não interagir. Desde que um corpo é fecundado, esse corpo não está alheio ao que acontece ao seu redor. Ao contrário, realiza-se no seu contínuo relacionar-se. Isso ocorre porque o corpo não é um limite ao outro, apenas é um intervalo que me permite aproximar-me desse outro.

Nesse ínterim, é impossível não perceber que a morte de Benigno não é propriamente uma morte, dado que há um completar-se com a concepção da mulher amada, outrora em coma. Essa metáfora se percebe devido ao paradoxo que existe em relação ao outro personagem que assiste passivamente a morte lenta e gradual da ex-toureira, que também se encontrava em coma. A compreensão do corpo como lugar das expressões do Ser é evidenciada justamente quando o ciclo se completa com a “pseudo-morte” de Benigno. Daí porque pensar na metáfora do Amor quando se admira este esplêndido filme de Almodóvar. Hable con Ella é um filme como poucos conseguem ser.





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10.11.10

O sucesso de "O Fantasma da Ópera"

Se tem uma herança que herdei de meu pai que não posso me esquecer e que admiro muito, esta herança é o gosto pelo musical "O Fantasma da Ópera", adaptação de sucesso do romance de Gaston Leroux. O cinema já conheceu algumas adaptações, mas aquela de maior sucesso é sem dúvida a obra-prima de Andrew Lloyd Weber, Charles Hart e Richard Stilgoe para a Broadway. O musical continua em apresentação quase diária desde 1986 com mais de 100 milhões de expectadores de todo o mundo e narra o drama amoroso de Christine Daaé, soprano que passa a fazer sucesso com sua bela voz e que se torna alvo da ciumenta paixão do fantasma, que se esconde nas galerias do Ópera de Paris, por Raoul, amor de infância de Christine que patrocina a prestigiosa casa de artes.

Hoje, o musical tem apresentações constantes em cinco cidades no mundo, segundo o site oficial, e em outubro deste ano alcançou a histórica de marca de 10.000 apresentações só em Londres, no Her Majesty's Theatre.

Mas, afinal, o que explica o enorme sucesso desta obra?

Não encontrei muitas referências para me auxiliar na resposta a esta pergunta, mas é impossível não destacar a força simbólica desta obra, com uma forte presença de figuras e arquétipos que dominam os personagens principais. Sem aprofundar-me na questão, destaco dois elementos importantes: o "anjo da música", que para Christine é a voz que a educa e a prepara para a sua exposição no mundo, e a figura de Raoul, que desequilibra a relação entre a soprano e o fantasma. É notória a luta de Christine entre o real e o imaginário, luta esta que atravessa a vida de todos nós.

Dito isto, convido você a compartilhar o teu ponto de vista sobre o sucesso desta obra e a saborear um pouco deste sucesso com o vídeo abaixo, onde estrelam Sarah Brightman e Steve Harley, dois dos primeiros atores do musical londrino.






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30.10.10

O século XX em sons e imagens

Sinta-se convidado a viajar no tempo através do original e premiado documentário "Nós que aqui estamos, por vós esperamos". Este filme de Marcelo Masagão conta a história do século XX a partir de personagens comuns, que viveram e morreram dedicando a própria vida para cada mudança vivida pela humanidade neste período. A viagem acontece com a criteriosa seleção de fotografias e pequenos vídeos de eventos que marcaram o século, como as guerras, o movimento feminista, a evolução do trabalho e o desenvolvimento tecnológico, acompanhada de uma trilha sonora original.

Ao final do documentário é possível entender como o autor se inspirou para o sugestivo título da sua obra, que foi premiada em 2000 no Festival de Gramado (melhor montagem) e no Festival do Recife (melhor filme, melhor roteiro e melhor montagem). São 73 minutos que relatam os altos e baixos que marcaram a história recente. Coloquei uma playlist do YouTube dividindo o filme em 8 partes, que podem ser vistas uma a uma aqui. Para passar de uma parte a outra é só usar as setas laterais. Ademais, a mesma playlist pode ser vista no meu canal do YouTube.






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23.8.10

12.8.10

Ilha das Flores

Enquanto tudo parece ser lógico o suficiente para fazer-nos entender que compreendemos de todo a nossa realidade circundante, – seja o tempo, o espaço, as contas, o consumo e outras coisas lógicas – parece coexistirem coisas incompreensíveis para a lógica existente. O que permite ao homem ser o que é, em termos lógicos, é impossível ao porco, por este não ter telencéfalo desenvolvido e muito menos polegar opositor. No entanto, numa lógica do consumo, o porco pode valer mais que um ser humano, que se vê numa existência provida de polegar opositor, telencéfalo desenvolvido e liberdade… Liberdade? Em que sentido?

Assista a um dos melhores curtas-metragem já produzidos no Brasil e no mundo. É um breve documentário bastante premiado de Jorge Furtado, produzido em 1989, que muito nos ajuda refletir acerca de nossa condição humana.



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