Textos e reflexões de Rodrigo Meireles

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25.7.13

O poder da mudança

Recentemente, uma pessoa perguntou-me o que eu faria se tivesse todo o poder do mundo. Sem muitas delongas e com sinceridade, eu posso responder que eu gostaria de acabar com todo o mal, parar todas as guerras e também parar todas as violências cometidas pelos humanos. Se eu tivesse este específico poder, eu gostaria de fazer com que todas as pessoas fossem capazes de viver o verdadeiro Amor.

Sim, se eu tivesse este poder, eu gostaria de acabar com todo o mal e parar todos os sofrimentos. Eu não gostaria mais de ver crianças chorando porque não têm o que comer e também não gostaria de ver pessoas miseráveis nas ruas das estradas mundo afora vítimas de interesses restritos e materiais. Ao invés disso, eu gostaria de ver mais dignidade para todas as pessoas do mundo.

Mas, como eu faria isso? Como sabemos, o mundo é enorme e as pessoas são bastante diferentes umas das outras. Vivem diversas culturas, dentre as quais, culturas que as fazem pensar diferente de mim em muitos aspectos e que têm, cada uma, belezas e riquezas próprias. Existem diferentes crenças no mundo e diversos interesses que movem as ações das pessoas. Como eu poderia dizer o que é melhor para cada um em particular? As pessoas são livres para escolher como viver e mesmo um tal extraordinário poder não mudaria isto por muito tempo. Um poder assim apenas subordinaria as pessoas a mim, tolhendo a liberdade e forçando uma unidade que não respeita as diferenças. Um poder deste tipo não me serve e não me representa.

Contudo, apesar das diferenças, eu penso que também existem diversos princípios comuns e essenciais entre os vários povos e culturas, como o princípio da vida, que inspira o princípio da dignidade da vida humana. Segundo Kant, cada pessoa é um fim em si mesma, não um meio, e tem potencialidades que precisam ser valorizadas. Portanto, através deste princípio, cada pessoa pode ser mais tolerante e mais respeitosa, dado que para viver e preservar a própria vida, deve também saber viver com quem está ao lado. A vida não é de um ou de outro, não pertence a alguém específico. A vida é de todos para ser vivida com todos, o que exige abertura, respeito e tolerância. Nenhuma pessoa que valoriza a própria vida quer morrer e, por isso mesmo, não pode ter o direito de matar ou fazer sofrer a outrem. Então, podemos dizer que é possível viver com outras pessoas, mesmo se tais pessoas sejam tão diferentes.

Diante disto, uma pergunta: existiria algo que todas as culturas poderiam viver para que uma mudança acontecesse a ponto de amenizar os conflitos e os sofrimentos? Sim, existe! O Amor ao próximo! Viver com o outro significa saber doar-se, ou seja, amar. Todas as culturas podem viver isto. Ainda que o mal exista e que o homem possa escolher entre fazer o bem ou o mal, o Amor é a chave para a fraternidade universal.

Desta forma, eu posso dizer que tenho algum poder. Primeiramente, porque posso mudar a mim mesmo para ser o primeiro a amar e, fazendo isso, eu posso gerar a mudança nas pessoas próximas a mim e transformar o mundo, como uma onda do mar. Para isto, eu preciso ser a mudança que eu quero para o mundo. Portanto, eu posso viver este poder em cada ação, em cada olhar e em cada escuta que faço no meu dia-a-dia. Não é fácil, eu sei, e muitas vezes posso errar. Todavia, posso praticar este Amor todos os dias e viver a minha vida de forma livre e leve. O segredo é viver o Amor. Isto é, começar a mudança a partir de mim, sendo capaz de doar-me para cada pessoa ao meu redor. Ou, simplesmente, ser o Amor. Este é o meu poder de mudança.

A ação de cada um de nós e um poder tão singular podem parecer insignificantes diante de um mundo tão vasto e complexo, mas, se cada um usa o seu poder de amar, este mundo poderia ser um lugar diferente e bem melhor para viver.




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24.9.11

A liberdade entre dores e cores

Viver é experimentar o que a vida nos traz e tudo aquilo que é inevitável. Viver é, portanto, relacionar-se e é em meio às suas relações consigo mesma, com os outros e com o mundo que a pessoa se descobre. Nessas relações com o mundo, a pessoa encontra desdobramentos permeados de descobertas e também de sofrimento. Contudo, mesmo em meio a esses desdobramentos, como percebemos na experiência clínica, é possível encontrar sentido na vida. Segundo Viktor Frankl, "o sentido da vida é um sentido incondicional, por incluir até o sentido potencial do sofrimento inevitável". Encontra-se sentido para a vida quando se opta pela experiência de viver.

Essa experiência mostra que a cada instante a pessoa é levada a confrontar o mundo, com suas dores e cores. Dores e cores que revelam uma dialética dantesca de descoberta de si mesmo no mundo. É interessante constatar que, na sua Comédia, o memorável poeta italiano Dante Alighieri constrói um excursus perfeitamente associável à experiência do homem pós-moderno, mesmo até daquele que busca a psicoterapia para um autoconhecimento. O caminho do inferno ao paraíso, em Dante, é também o caminho que as almas não pusilânimes ousam traçar se querem descobrir um sentido maior para as suas vidas. Os pusilânimes são aqueles que não fazem escolhas morais, nem para o bem, nem para o mal. Estes nada mais desejam e não são capazes sequer de entrar no inferno e traçar o próprio caminho, o próprio itinerário. Estão parados na própria dor vazia, não querem sentir mais nada e simplesmente deixam que a vida os leve no seu tempo infindável e sem cor. Para estes, estar vivo ou morto não faz diferença, mas, para quem sente o mundo, viver é atravessar as linhas da existência, com tudo o que se encontra no caminho. Cabe aqui um pressuposto: a escolha e a coragem de viver. Encarar as dores não é buscá-las por um mero prazer pessoal, mas é ressignificá-las para atribuir a elas um novo colorido. Eis que o itinerarium de Dante revela uma pessoa capaz ter a coragem necessária para tomar consciência de si mesma, atravessar as próprias dores e atingir o paraíso, lugar da liberdade e do amor. Desde o inferno, Dante procurava a liberdade - "Libertà va cercando" (Purg I, 71) - e chega ao paraíso não sem antes provar do fogo, da dor, do sofrimento. Mesmo Beatriz, seu grande amor espiritual e seu daimon, ao longo do Cântico do Paraíso e após o muro de fogo do Purgatório, o faz provar novas experiências para que este atinja a liberdade plena, no amor.

A liberdade, segundo Rollo May, "é a capacidade de o homem contribuir para a sua própria evolução", pressupõe autoconsciência e se revela na capacidade de fazer escolhas. Não se trata de uma liberdade na perspectiva de um indivíduo isolado, segundo a qual o homem se liberta de tudo e de todos, mas da liberdade com responsabilidade, que se reconhece enquanto relação.

Portanto, ser livre é ter consciência de si mesmo no mundo, com todos os elos que a existência comporta. Todavia, para que esta consciência evolua e se atualize, é preciso que a pessoa se deixe afetar pelos fenômenos que a toca no mundo, como carne, para viver e sentir a necessidade de fazer as próprias escolhas. É assim que a pessoa pode atualizar-se e é com esse intuito que a psicologia pode contribuir para a abertura de novas experiências no horizonte de cada pessoa.


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27.4.11

Por uma cultura da unidade!

O homem está em crise. Desnorteado, vive uma cultura que o faz fechar-se ainda mais em sua própria experiência, matando as relações e limitando o convívio social. Parafraseando Rollo May, o homem deve caminhar numa "busca a si mesmo", reconhecendo porém que tal busca não pode fechá-lo ao contato com o outro e com o mundo. A crise do homem de hoje se encontra na cultura predominante, que incita a ética do "eu sozinho", da autonomia e do consumo, na qual o mesmo homem se destrói, levando consigo a Criação. Faz-se necessária, portanto, uma nova cultura!

Uma cultura capaz de perceber o valor do outro, na qual prevaleça o respeito, a harmonia e o amor. Uma cultura na qual o diferente é considerado sem ser excluído, onde os fracos têm vez e voz. Numa cultura assim,  a vida é uma viagem, um processo: é história que se faz em fatos construtivos, e não destrutivos.

Precisamos recuperar os laços de confiança com cada ser que passa ao nosso lado e acreditar que somente assim o mundo e a cultura podem se reconstruir numa rede fraterna onde impera o Amor. Mas o que é o Amor? A palavra "Amor" implica o dom de si, que por sua vez implica o encontro para algo ou alguém fora do próprio eu no reconhecimento de um tu. Amar é doar o próprio olhar, a própria escuta e lançar-se. É, portanto, uma tarefa árdua e nem sempre fácil, que requer um amplo senso de liberdade e uma forte consciência do sentido da própria existência. Para amar, precisamos estar inteiros, saudáveis e dispostos a encontrar no outro uma razão maior para viver a vida.

A cultura, com seus múltiplos contornos, depende de nós, realiza-se em nós e é marcada por nossas ações. Para mudá-la, portanto, é necessário o nosso empenho. Não basta somente criticar, mas é preciso, antes de mais nada, reconhecer em nós mesmos a necessidade de mudança. Criticar os políticos ou aqueles que roubam, matam e destróem não é o bastante se não reconhecemos que em nós também existe uma certa dose destrutiva quando não respeitamos o outro e quando ferimos as nossas relações. A lei existe para auxiliar o homem neste intuito, mas a moral é do homem e deve ser vivida com consciência por cada um de nós.

É nesse sentido que defendo uma cultura da unidade. Não para afirmar uma igualdade comunista, nem tampouco para deixar que direitos e necessidades humanas sejam desrespeitadas em favor de interesses limitados. Uma cultura da unidade faz-se necessária para que os homens possam reencontrar uma convivência harmoniosa com seus pares e com a natureza. Somos todos resultantes da poeira cósmica espalhada em milhões de anos e filhos da mesma Terra, embora sejamos tão diferentes um do outro. Por uma cultura da unidade, vivamos o Amor verdadeiro!


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16.3.11

Em que você acredita?

O destino mudou. Corre na internet a notícia de que o horóscopo que praticamente todos conhecem e que muitos consultam para saber de suas próprias variantes pessoais mudou. Isso mesmo, mudou! Um momento, amigo/amiga, reflitamos: ninguém se perguntou à respeito? E os que acreditam, se perguntaram e continuaram acreditando? Os astros não mentem, mesmo que a leitura deles feita seja totalmente equivocada.

Por que encontramos tantas coincidências entre o que diz o horóscopo (seja o velho, seja o novo) e a própria vida? Uma hipótese é que a consciência humana é facilmente sugestionável, sobretudo em virtude da necessidade de autoconhecimento presente no ser humano. Desde sempre, o desejo em conhecer a própria vida e o sentido da própria existência faz parte do ser humano, que tende a buscar as mais variadas respostas para tanto. A história da mitologia e a evolução do saber científico nos mostra isso. No entanto, algumas dessas tentativas de responder ao desejo de autoconhecimento inerente ao ser humano são parciais e nunca foram demonstradas a fundo. É o caso da astrologia, que alimenta a idéia da influência dos astros do universo na determinação dos comportamentos humanos.

Ora, considerando que o universo é um enorme sistema em que cada partícula, por minúscula que seja, está em constante interação com o sistema, é impossível negar que os "astros do céu" não tenham alguma influência sobre nós. O problema é que mesmo um sistema tão complexo, exatamente por ser complexo, não é capaz de evidenciar todas as suas determinações. No entanto, o imaginário humano foi capaz de enxergar no horóscopo e suas constelações tantas particularidades comportamentais que os psicólogos não teriam necessidade de estudar a personalidade para conhecer as variantes do complexo ser humano.

Mas e você, em que acredita?




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6.10.10

Por uma nova perspectiva para o pensar

O que significa pensar e como a história conheceu e viveu esta característica tão peculiar ao ser humano? Tentarei mergulhar nesta profunda reflexão fazendo uma leitura de dois artigos do filósofo italiano Giuseppe Maria Zanghí sobre o tema. Os artigos são: "Che cos'è pensare?" e "O pensar como um ato de amor: por um novo paradigma a partir do carisma da unidade". Ambos podem ser lidos através do Scribd, onde compartilhei.

Antes de mais nada, pensar sobre o pensar requer a distinção de alguns elementos fundamentais para compreendê-lo em seu processo, são eles: sujeito, objeto e a intersecção entre sujeito e objeto, que o autor chama de "luz" sob a qual ocorre este encontro. Estes elementos são importantes para compreender que o pensar pressupõe o encontro de um sujeito pensante e um objeto pensado, ou melhor, pressupõe que alguém pense algo imerso em um contexto cultural que o ilumina em tal pensar. Todavia, o que significa este processo?

No seu primeiro artigo, o autor nos convida a enquadrar o pensar, tentando encontrar uma definição que seja plausível e a mais completa possível. Desse modo, expõe sete possíveis definições que de certa maneira são verdadeiras, mas que ainda deixam lacunas. Entenderemos o porque de tais lacunas na medida que serão também expostos os pressupostos do autor, que ao final servem de base para a sua compreensão sobre o pensar como um ato de amor. Vamos então à pergunta: o que é pensar?

O pensar poderia ser entendido como o ato de explorar a realidade ao meu redor, colhendo-a. Fato este que é verdadeiro, mas que não diz tudo. Afinal, o pensar não se resume a um "fazer" do sujeito frente ao objeto, dado que pode ser vivido em um estado que o autor chama de repouso. Dito em outras palavras, o sujeito não pode ser reduzido à mera eficiência, pois o pensar existe mesmo em um "não fazer".

O pensar também poderia ser entendido como um processo de conceitualização da realidade "externa" ao sujeito através de uma abstração do percebido. Também este processo faz parte do pensar, mas, como o anterior, não o sintetiza por completo porque, se assim o fosse, a realidade não passaria de uma mera cópia do real, transcrita pelo pensamento.

Podemos ir mais longe pensando o pensar como um processo de autoconscientização. Esse processo é igualmente presente no pensar, mas, da mesma maneira que não é possível reduzir o pensar ao mero apropriar-se de coisas consideradas "externas", não podemos definir o pensar como um processo de consciência interno ao sujeito, porque este último interage com outros sujeitos e a sua consciência é sempre intencional, sendo "consciência de", isto é, que o faz pensar para além de si mesmo.

O pensar, então, poderia ser entendido como um processo de superação das diferenças entre o sujeito e a realidade pensada, através do qual o sujeito se confunde ou se mistura com os mistérios do real enquanto o pensa. Segundo o autor, seria esta uma faculdade comum aos poetas. Todavia, se consideramos importante a união entre o sujeito pensante e a realidade pensada, é fundamental destacar a distinção que permite tal união. Afinal, não pode haver tendência de união sem uma prévia e originária distinção entre os elementos. Dessa forma, o pensar não nega a diferença entre sujeito e objeto e não pode tender à união entre eles sem partir de uma distinção essencial ao sujeito em sua relação com os outros e com o mundo.

Podemos pensar o pensar também como um processo de comunhão espiritual entre o sujeito pensante e a realidade pensada, no qual o primeiro vive uma suposta "imersão" no real e, abstraindo os conceitos inerentes a este, se identifica interiormente com o mesmo. Todavia, se por comunhão espiritual entendemos um processo de identificação interior com a realidade, o que está fora do pensar continua a ser pensável. Esta definição, portanto, restringe o pensar a uma experiência singular, mas que não abrange toda a realidade, ignorando-a para além do que pode ser vivido pelo sujeito.

Há ainda quem pense que o pensar corresponda à existência do sujeito, como um ato que caracteriza a sua vida enquanto definidora de existência. Porém, o fato de pensar, concernente ao sujeito, não implica que o pensar seja o sujeito, determinando a sua existência. Segundo Zanghí, o pensar pressupõe a existência do sujeito mesmo antes do próprio pensar. Nas suas palavras, "o pensar é um atuar-se do sujeito que [...] precede esta sua atuação" (p. 28).

Por fim, o autor destaca que o pensar poderia ser também concebido como um processo no qual o sujeito colhe a realidade na sua objetividade. Porém, o processo subjetivo de percepção está diretamente implicado no processo de pensar a realidade, portanto não é capaz de colhê-la no seu estado puro. Desta forma, a realidade percebida é também relativa ao sujeito, não sendo um objeto que possa ser estudado independentemente.

Não obstante as tantas possíveis definições, a humanidade continua a exercitar esta sua faculdade de pensar, tida para muitos como superior quando identificada com a razão ou mesmo com o intelecto. Todas as definições enunciadas, entre muitas outras, foram desenvolvidas na história da humanidade, que prossegue em seu longo e árduo caminho de auto-compreensão. A humanidade, portanto, pensa; mas como se desenvolveu este pensar ao longo da história?

No segundo artigo, Giuseppe Maria Zanghí descreve uma evolução em três momentos bem distintos, através dos quais destaca que o terceiro momento ainda está sendo desenhado, embora o considere de fundamental importância para um pensar aberto, dinâmico e capaz de formar um novo paradigma cultural. Os três momentos do pensar são: (1) o pensar como mito, (2) o pensar como Logos, e (3) o pensar como Amor.

Em um primeiro momento, a humanidade procurava explicações para a própria realidade no mito. Nesse período, o sujeito que pensa não é o indivíduo, mas o grupo, que pensa através de uma imersão no divino representado nas figuras míticas. São estas figuras que reúnem os conteúdos capazes de explicar as forças da natureza e o porque de cada coisa. Pensamento e vida se confundem não como posição racional ou conceitual do sujeito sobre a realidade, mas como adesão do sujeito coletivo ao real divinizado, sempre em consonância com a arché originária.

Ao longo do período definido pelo filósofo Karl Jaspers como "Era Axial" (entre 800 a.C. e 200 a.C.), assistimos ao florescer de diversas religiões e culturas, bem como ao desenvolvimento do pensar, que passa a destacar a figura do sujeito que pensa como indivíduo. A partir desse momento, é o indivíduo que assume a possibilidade de pensar a realidade, saindo do seio do divino. Inverte-se, portanto, a lógica anterior: não é mais o sujeito que habita o divino, mas o divino que habita o sujeito. O pensar não se dá mais como mito (ainda que este tenha deixado suas marcas na história), mas como Logos, onde o sujeito que pensa é o indivíduo, ser-a-si-mesmo, e a razão vem evidenciada sempre mais como fonte do pensar. Através da razão, o sujeito pode compreender os fenômenos que lhe são dados à consciência e atribuir-lhes conceitos. O indivíduo reconhece que em si mesmo existe uma potencial capacidade de conhecer as coisas. Ainda que esta potencialidade seja atribuída ao divino que habita no sujeito (pensemos ao Daimon de Sócrates e aos diversos fenômenos religiosos), é o indivíduo quem pensa.

Contudo, verifica-se nos últimos séculos um declínio dessa forma de pensar, em decorrência, sobretudo, do desenvolvimento da técnica e da crescente desvalorização do homem. A modernidade expulsa o divino do sujeito e passa a desenvolver uma forma de pensar sempre mais funcional. Em um período onde predomina a técnica, o pensar sobre o homem e sua existência é ofuscado pelo pensar o fazer deste homem. O sujeito perde espaço para o objeto caindo sempre mais no chamado niilismo, um vazio de sentido.

É nesse contexto que Zanghí destaca o pensar como Amor. Se, ao longo da história, a humanidade se perdeu no divino e, milênios mais tarde, encontrou-se sem ele e portanto sozinha e no abismo do Nada, faz-se necessário encontrar uma luz que reúna o humano e o divino para iluminar o pensar do sujeito contemporâneo sobre si mesmo, os outros e o mundo. Uma tal luz é já conhecida pela humanidade na figura-pessoa de Jesus Cristo, que com a sua vida revela um paradigma que nos dá uma chave de leitura do real que merece ser melhor estudada.

O paradigma revelado com o Evento Cristo nos mostra que a raiz do pensar é a Palavra criadora de Deus. A Palavra é a origem das palavras, expressas nas criaturas, o que nos leva a crer que "o pensar é, enraizado no acolhimento de Deus, acolher a realidade, o mundo, fazendo do ato de pensar a casa do mundo, útero no qual as realidades alcançam o próprio destino" (Zanghí, p. 32). É um pensar que se dá no indivíduo que se descobre em relação, sendo filhos como o Filho, Jesus. O indivíduo que ama, se doa; age de si para além-de-si (não se desdobra somente para si mesmo). É no Amor como dom genuíno e gratuito que se encontra o sujeito desta maneira de pensar, no Amor que é capaz de se lançar para além de si e de acolher o outro. O indivíduo pensa como um dom de si fazendo-se nada para encontrar tudo em uma pericorese contínua. É, portanto, um pensar intersubjetivo ou relacional, pois se dá enquanto relação. Esta é a dinâmica do paradigma trinitário revelada através da pessoa de Jesus Cristo a partir de seu abandono na cruz. Uma dinâmica que mostra a interação kenótica de três pessoas divinas distintas uma da outra mas unidas em perfeita comunhão.

Como Jesus vive esta dinâmica estando na cruz? Respondo citando Zanghí: "O Cristo-palavra pregado na cruz, no abismo do abandono, da solidão extrema e portanto do silêncio absoluto, conduzindo ao máximo a kenosis acolhe radicalmente em si a realidade do mundo na sua criaturalidade, se consome, até anular a si mesmo, até fazer-se não-Palavra. Mas é exatamente neste dar-se sem limites que Ele se revela a Palavra, é exatamente no seu entrar no silêncio do Pai. Fazendo isso com toda a sua humanidade, na qual toda a nossa humanidade é sintetizada, o Cristo a leva no seu próprio falar, no dar-se toda no Espírito" (p. 32).

Com esta perspectiva, é possível dizer que sair do niilismo contemporâneo requer a descoberta de um novo nihil. Não mais um nada como vazio de sentido, que se revela na falta de referências e de uma verdade que possa ser plenamente vivida, mas um nada de Amor, como dom completo e autêntico. Esse é o desafio para o pensar hoje. Em poucas palavras, é preciso recuperar o sentido do Ser, não mais como um mero Ser-a-si-mesmo, mas como Ser-em-relação, que se descobre e se desenvolve enquanto dom para o outro, em perfeita comunhão de si.


Referências bibliográficas:

G. M. Zanghí, Che cos'è pensare?, Sophia: ricerche sui fondamenti e la correlazione dei saperi, vol. I, n. 0, 2008, p. 25-34.

G. M. Zanghí, O pensar como ato de amor: por um novo paradigma cultural a partir do carisma da unidade. Revista Abba, vol. VI, n. 2, 2003, p. 37-55.


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29.9.10

Das certezas às incertezas, do in/de-dedutível ao complexo

Pensar não é um ato definitivo em si, mas uma cadeia de palavras, enunciados e definições construídas e emitidas em meio a um contexto que revela percepções, como diria Maurice Merleau-Ponty, e desenha o mundo de quem pensa. Mas, pergunto, esse mundo seria um mundo subjetivo, onde cada palavra emitida sobre ele seria uma mera interpretação? Esse mundo, segundo a leitura de Edgar Morin, é uma “costura”, um intrincado de linhas cruzadas, paralelas, diagonais, triangulares, multicor e multiforme. Portanto, mesmo o pensar de um é um pensar o mundo no mundo, porque este sujeito está diretamente implicado neste último e porque compõe e se constitui da e na trama cósmica. O homem é mundo e o é como chair1 (carne, segundo Merleau-Ponty2). Não existe um contorno que delimite o espaço de um único pensar, mas múltiplos contornos, desconhecidos e incertos a priori.


Como bem recorda Morin, enquanto progredia, a modernidade conheceu uma diferenciação funcional (Beck, 1986; Laeyendecker, 1990; Magatti, 2009) entre os diversos subsistemas construídos até então, como a economia, a política e a religião. Cada subsistema evoluía por si mesmo e cada vez mais tendia3 a enxergar o mundo com o próprio paradigma. Verifica-se um crescente processo de especialização de e em cada função social (subsistemas), que trouxe efeitos em vários âmbitos sociais, como o que assistimos na evolução da industrialização e na divisão do trabalho. Uma racionalidade funcional (ou racionalidade tecnoburocrática, em Morin) ganhou força e incrementou a técnica, fortaleceu a ciência e fez com que cada subsistema se desenvolvesse numa perspectiva unidimensional. Com isso, assistimos à fragmentação do mundo e (por que não?) do sujeito4. Como diz Morin: “a inteligência parcelada, compartimentalizada, mecanicista, disjuntiva, reducionista, destrói a complexidade do mundo, em fragmentos distintos, fraciona os problemas, separa o que está unido, unidimensionaliza o multidimensional” (2003, p. 71). A conseqüência disso é uma inteligência cega, incapaz de enxergar a degradação que produz, mas orgulhosamente convencida do que faz.


Não obstante tal racionalidade, o mundo pensa e revisitando os percursos desse pensar, chegamos a uma das maiores descobertas do século XX: a incerteza. A lógica nos mostrou que não existe uma única forma de organizar ou de sistematizar o mundo e ainda, como destaca Morin, “revelou as incertezas na indução, as idedutibilidades na dedução, e os limites no princípio do terceiro incluso” (ibid., p. 71). A ciência discutiu as várias formas de construção científica cogitando desde a indução à dedução, passando pelo racionalismo lógico e o racionalismo crítico, e muito se frisou que tais métodos di per sé não respondem à complexidade do saber humano. Em meio a isso, vemos o lento surgimento de um pensamento que dê conta dessa complexidade. Vemos ainda a lenta e necessária aproximação dos subsistemas para a composição da complexa teia social, por exemplo, assistimos hoje a discussão que implica cada vez mais um subsistema com outro, como ocorre no vivo debate entre economia, política e ecologia, bem como um encontro sempre mais fecundo e aberto entre as ciências e as demais formas de saber. Não se trata de fusões de saberes, mas de um trans que nos permite enxergar para além de um único subsistema, isto é, de considerá-los juntos. São sistemas que se retroalimentam e se reconhecem uns nos outros sem necessariamente se desfazer.


Procurando elucidar e caracterizar o que chama de complexidade, Morin destaca sete princípios que nos ajudam a entender como reunir as forças que a humanidade criou não obstante o desafio da incerteza. São princípios-chave para compreender essa lenta e profunda revolução que a sociedade está vivendo. Assim temos: (1) “o princípio sistêmico, ou organizacional”, onde o todo é mais do que a soma das partes e onde se reconhece que é impossível conhecer partes o ou o todo se não se conhece um ou outro; (2) oprincípio “hologramático, que responde ao paradoxo do princípio anterior afirmando que “o próprio todo está nas partes”; (3) o princípio do ciclo retroativo, que garante a autonomia do sistema na medida em que se considera que o que é gerado por este produz retroações sobre o próprio sistema, envolvendo-o por completo. Esse princípio, segundo Morin (citando Wiener), “rompe com o princípio da causalidade linear”; (4) o “princípio do ciclo recorrente destaca a auto-organização de um sistema, que não somente gera como, a partir de seus peculiares elementos, é auto-gerado e se mantém; (5) o “princípio de auto-ecoorganização, a partir do qual se destaca o ciclo constante de morte e vida para a conservação dos seres humanos e da sociedade; (6) o “princípio dialógico, através do qual evidentes antagonismos como o de morte e vida se mostram indissociavelmente ligados; e, por fim, (7) o “princípio da reintrodução do conhecido em todo o conhecimento, no qual o autor destaca a necessidade de se encontrar soluções com tudo o que o conhecimento foi capaz de produzir, reconhecendo limites e encontrando meios de compatibilização entre tais conhecimentos.


Tais princípios não foram dados de um momento a outro, mas atravessaram uma maturação sempre maior e mostram evidências significativas em vários episódios e campos, como já destaquei anteriormente. Indo mais além, Morin frisa que esses princípios não nasceram de uma mera conclusão moderna, mas são frutos da própria história, uma vez que se encontram em vários enunciados da filosofia, da ciência e de diversas tradições, mesmo em tradições milenares como a chinesa. Essa história nos conduz a uma revolução ainda em curso, inacabada, “que introduz a organização nas ciências da terra e a ciência ecológica” (ibid., p. 77). Trata-se da revolução sistêmica, que foi e é um processo contínuo.


Com isso, podemos continuar a pensar, mas de modo complexo. Pensar em modo complexo requer, porém, uma mudança e uma maturação do paradigma que nos move para não cairmos novamente nos riscos da fragmentação. Exige, portanto, um alargamento de horizontes e uma abertura ao que o mundo, em seus múltiplos contextos, nos faz perceber. Mais que isso, uma abertura a experimentar o mundo, sentindo-o de modo intenso, pensando-o/vivendo-o ou vivendo-o/pensando-o. Ouso dizer que o pensar complexamente é um pensar sempre novo, a partir do qual podemos afirmar que mesmo a repetição é uma ilusão, pois se renova na medida em que supostamente se repete. E ainda ouso repetir a afirmação de Morin na qual destaca que “o pensamento complexo não é o contrário do pensamento simplificador, ele o integra” (ibid., p. 75), ou seja, pensar o simples não nega o complexo e vice-versa. Com o pensamento complexo, posso, portanto, pensar seja na certeza que na incerteza, no in/de-dutível e no complexo, sem me reduzir a uma única instância do saber.



Referências bibliográficas:

BECK U., Risikogesellschaft. Auf dem Weg in eine andere Moderne, Suhrkamp, Frankfurt/Main 1986. [Italiano], La società del rischio. Verso una seconda modernità, Carocci, Roma 2007.


FERREIRA, A. L. L. A psicologia como saber mestiço: o cruzamento múltiplo entre práticas sociais e conceitos científicos. Histórias, Ciências e Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, p. 227-238, abr.-jun. 2006.

LAEYENDECKER (Leo), Spiritualiteit en moderne cultuur, in J. BEUMER (ed.), Als de hemel de aarde raakt, Kok, Kampen,179 p., cit. pp.9-24, 1990.

MAGATTI M., Libertà immaginaria. Le illusioni del capitalismo technonihilista, Feltrinelli, Milano 2009.

MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2000.

MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Editora Sulina, 2005.

MORIN, E. A necessidade do pensamento complexo. In: MENDES, Candido (org.). Representação e Complexidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. p. 69-77.



Notas:

1 O conceito de carne, elaborado na fase mais madura do filósofo francês, foi deixado em aberto devido à sua morte precoce, mas revela um homem-mundo onde vivência e contexto se co(n)-fundem. Compartilho a reflexão de Marilena Chauí sobre o conceito: “Carne: habitadas por significações ou significações encarnadas, as coisas do mundo possuem interior, são fulgurações de sentido, como as estrelas de Van Gogh; como elas, nosso corpo não é uma máquina de músculos e nervos ligados por relações de causalidade e observável do exterior, mas é interioridade que se exterioriza, é e faz sentido. Se elas e nós nos comunicamos não é porque elas agiriam sobre nossos órgãos dos sentidos e sobre nosso sistema nervoso, nem porque nosso entendimento as transformaria em idéias e conceitos, mas porque elas e nós participamos da mesma Carne” (CHAUÍ, M. Merleau-Ponty: a obra fecunda, In: Revista Cult, n. 123).

2 Recomendo a leitura do texto “A dúvida de Cézanne” e do livro inacabado “O Visível e o Invisível”, de Maurice Merleau-Ponty (2000).

3 Escrevo no tempo passado, mas ainda hoje vemos resquícios dessa diferenciação funcional.

4 A história e a epistemologia da psicologia são testemunhas da criação de diversos modos de subjetivação que a modernidade criou e que não pára de criar em um constante processo de hibridização (FERREIRA, A. A. L., 2006).


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