Textos e reflexões de Rodrigo Meireles

9.10.12

Comédia Intocável!

Se você aprecia uma boa comédia, sem apelações e com um toque de profundidade, assista o filme "Intocáveis" (França, 2011). O grande sucesso francês do momento é uma comédia bem elaborada, baseada em fatos reais, que destaca o relacionamento entre um personagem da periferia e um milionário tetraplégico.

Em divertidos encontros, o filme revela o desenvolvimento de uma amizade sincera, autêntica e espontânea entre dois personagens de origens bem distintas, que resulta em ótimas gargalhadas. O que chama atenção nesta comédia é o fato de  que para rir não é preciso apelar para o ridículo, destacando a profunda e sincera relação que nasceu entre os dois. Os personagens revelam-se sem máscaras e realizam um encontro cheio de contrastes em que ambos permitem se conhecer e aceitar as diferenças. Tudo, porém, com bastante leveza, música e ação.

O roteiro foi inspirado na vida do milionário tetraplégico Philippe Pozzo di Borgo e de seu enfermeiro, Abdel Selou (representado no personagem Driss). O primeiro escreveu um livro intitulado "O Segundo Suspiro", registrando cada frase em um gravador. Ainda vive na França com a família, mas o seu fiel companheiro casou-se há oitos anos, teve três filhos e mudou-se para o Marrocos. Com a própria história, eles mostram para o mundo de hoje que é possível superar as dificuldades, construir uma sólida amizade e ter uma vida feliz.





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3.10.12

O tempo nos desfolha - Francisco Carvalho

Foto de Fabiana Guimarães.
O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.


In: Carvalho, Francisco. Jornal de Poesia.
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4.9.12

Fé e Vida

É bem verdade que ter fé é crer. É ter "a convicção de fatos que se não vêem" (Hb, 11:1). É escutar e acreditar em fatos que virão. Porém, o ato de ter fé não pode ser confundido com espera sem vida. Requer ação, dedicação e transformação. Quem apenas espera, mantém-se alheio ao contínuo  processo criativo, próprio de sua natureza. Ter fé não é esperar, é acreditar em algo maior e viver conforme o que acredita, buscando-o incessantemente.

Nas Sagradas Escrituras encontramos uma belíssima carta de testemunhos sobre a fé no livro dos Hebreus, todos demonstrando como seguiram o que acreditaram. Abraão, Abel, Enoque, Noé e Sara, dentre outros testemunhos, tiveram fé. Nenhum deles, porém, apenas acreditou e esperou. Fizeram sacrifícios, percorreram caminhos desconhecidos e acreditaram em fatos logicamente impossíveis porque acreditaram e se lançaram na fé.

Também no Evangelho de Marcos encontramos um testemunho de fé quando uma mulher tocou as vestes de Jesus porque acreditara que aquele gesto a curaria. Sentindo que algo acontecera, Jesus encontrou-a em meio à multidão e disse: "Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada deste teu mal" (Mc 5: 34). Também neste episódio não houve espera. A mulher acreditou e foi ao encontro de Jesus.

A fé é também sinônimo de confiança em algo maior e invisível, que nos liberta e nos permite viver para além do que vemos, tocamos e sabemos. A fé nos salva porque nos permite acreditar que há algo maior pelo qual viver e pelo qual dar a própria vida. Com a fé, é possível ir além de si para amar, transcendendo-se. Desta forma, se alguém que acredita em Jesus apenas espera milagres, nada entendeu sobre a própria fé. Para estes, ter fé é muito fácil e cômodo, pois apenas acreditam, mas não saem da própria zona de conforto e não se lançam no que acreditam, isto é, não amam. A fé nos convida a amar. Se alguém acredita em Jesus e quer que Ele se manifeste, precisa ir ao encontro dele através do amor. Afinal, disse Jesus, "(...) aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele" (Jo 14:21).

Assim, ter fé não é apenas acreditar, pois requer ação, requer amor. Amar é "ir ao encontro de", doar-se, transcender-se. Não se faz isso apenas com palavras, louvores ou com a mera devoção, mas com atos concretos. Ter fé, portanto, requer viver com o horizonte aberto e lançar-se, mesmo na escuridão, naquilo em que se acredita. Fé e vida, confiança e amor, emunah e ahavaη πίστη e αγάπη, são conceitos inseparáveis e não podem ser plenamente compreendidos e vividos distintamente.


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27.8.12

50 anos de Psicologia no Brasil

Há exatos 50 anos, a Psicologia foi regulamentada como profissão no Brasil com a Lei 4.119/62. Desde então, novos cursos de graduação foram instituídos e a profissão cresceu, marcando presença em praticamente todos os espaços de trabalho que envolvem pessoas. Com o reconhecimento sempre crescente acerca deste saber e suas práticas, certamente esta profissão poderá crescer ainda mais, alcançando mais pessoas e melhorando a qualidade de vida da população brasileira.

O trabalho exercido pelos profissionais de Psicologia, hoje presentes em todo o Brasil, é de grande relevância para o bem-estar social e para a garantia da dignidade e da vida de cada cidadão. As psicólogas e os psicólogos atuam nas clinicas, nas escolas, nas empresas, nas organizações comunitárias, nos hospitais, nas unidades básicas de saúde, nos fóruns e tribunais, em entidades esportivas, nos departamentos de trânsito, em centros de pesquisa, nas universidades e em todos os lugares onde se faça necessária a garantia da harmonia e da convivência entre as pessoas.

Entendemos que é cuidando das pessoas que fortalecemos o nosso país. Portanto, é notório o reconhecimento das pessoas quanto à importância dos profissionais de Psicologia, assim como é também notório o aumento da oferta de cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia em todo o país nos últimos anos. No entanto, há ainda alguns avanços que precisamos conquistar em prol do pleno reconhecimento e do pleno exercício desta profissão. Entre estes avanços, destaco que se faz necessário:

(1) Regulamentar um piso salarial que seja digno e condizente com o trabalho exercido; 
(2) Regulamentar a carga horária máxima semanal, evitando sobrecargas; 
(3) Regulamentar a inserção obrigatória dos profissionais de Psicologia em todas as unidades de ensino, públicas e privadas, garantindo cobertura a todos os estudantes;
(4) Regulamentar a inserção obrigatória destes profissionais em todas as unidades básicas de saúde, garantindo escuta qualificada, melhorando a qualidade de vida, reforçando a prevenção de doenças e diminuindo os impactos de ocorrências mais graves;
(5) Expandir a implantação de mais Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em todo o país e fortalecer as redes de saúde mental, dando continuidade à reforma psiquiátrica, fortalecendo os vínculos comunitários e evitando modelos higienistas de tratamento;
(6) Garantir a realização de concursos públicos com vagas destinadas aos profissionais da Psicologia;
(7) Garantir acesso a atendimento clínico, público e de qualidade, a toda a população brasileira.

Ao longo de 50 anos, percebemos que temos muito a comemorar e muito mais a fazer e sabemos que esta conquista não se restringe aos profissionais de Psicologia, mas a toda a sociedade brasileira! Portanto, todos podemos comemorar e se manifestar em prol de mais qualidade no ensino e no exercício desta profissão, além de apoiar iniciativas por melhores condições de trabalho.

Por isso e por muito mais, PARABÉNS Psicólogas e Psicólogos!




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26.8.12

Ser cidadão sempre!

No próximo dia 7 de outubro, estaremos todos nas urnas para escolher o prefeito de nossas cidades. Para isso, devemos saber fazer a nossa escolha de modo consciente e participativo, conhecendo cada candidato através de suas propostas e suas articulações. Contudo, é preciso destacar que as eleições não se resumem a um simples voto. O processo eleitoral é parte do exercício da cidadania, que deve ser vivido antes, durante e após as eleições. Ou seja, nós, cidadãos, não podemos ficar passivos e esquecer da nossa importância para a cidade nem mesmo depois das eleições. Uma vez efetivada a escolha coletiva, com o resultado das urnas, temos de conhecer as ações da prefeitura e nos posicionar através de nossas críticas, sugestões e denúncias. Como já diria Betinho, o verdadeiro cidadão se manifesta, escolhe e participa!

Portanto, não basta selecionar um número e digitar na urna eletrônica. Dê a sua sugestão, faça a sua crítica de como está a sua cidade, defina a sua posição e após as eleições participe ativamente das ações da prefeitura através dos espaços já constituídos ou criando espaços para diálogo. As associações comunitárias são excelentes exemplos de espaços para este diálogo e para possíveis articulações. Além disso, também é possível alimentar as redes sociais, cobrar do prefeito eleito a realização de suas propostas e participar dos fóruns abertos pelo poder público ou pelas redes e associações civis para que sejam definidas as políticas necessárias para a cidade. O bem comum só é possível quando, juntos, buscamos o que queremos.

Manifeste-se, escolha e participe!


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19.8.12

Drogas e Cidadania

O Conselho Federal de Psicologia desenvolveu um portal na internet para esclarecimento das ações acerca das drogas, seus efeitos e tratamentos destacando que qualquer usuário é também um cidadão e precisa ser antes de tudo respeitado. Só teremos uma sociedade que viva bem se sabemos reconhecer em cada pessoa um cidadão, mesmo se este está precisando de ajuda e clama por socorro. Nos últimos meses, temos assistido a uma onda de intolerância aos usuários de drogas ilícitas, que estão sendo varridos das ruas numa reprise do modelo higienista como se fossem os únicos culpados por este problema. Tolerância e respeito são palavras-chave para qualquer encontro e sem estas palavras, qualquer usuário de drogas não passa de um ladrão ou de um vagabundo. Com tolerância e respeito, é possível escutar as necessidades de cada um e promover encontros saudáveis entre cidadãos e políticas públicas integradas.

Convido você a assistir uma sequência de 5 (cinco) pequenos vídeos especialmente preparados pelo Conselho Federal de Psicologia para esta discussão. Todos eles estão disponíveis no site Drogas e Cidadania. Recomendo!



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18.8.12

O perigo da medicalização

Recentemente, a psiquiatra Analice Gigliotti publicou um texto na Folha de São Paulo intitulado "A Última Lição de Chico Anysio" no qual destaca a preocupação de Chico Anysio em relação ao preconceito contra as pessoas com transtornos mentais e a sua recomendação para que os medicamentos psicotrópicos sejam disponibilizados à população mais pobre do Brasil. A autora reforça o pensamento do ator denunciando o que seria a falta de socorro aos doentes mentais do Brasil, que não teriam fácil acesso a medicamentos deste tipo. Discordo veemente!

O melhor socorro aos doentes mentais no Brasil não é o aumento da oferta de medicamentos, haja vista que o consumo de medicamentos psiquiátricos já é alto no Brasil e pouco resolve. O melhor socorro é o ampliamento das redes de apoio social, com atendimentos diversificados, personalizados e de qualidade. Concordo com Chico quanto ao preconceito psicofóbico ainda existente, mas discordo da afirmação de que o medicamento é a única solução para a depressão e outros transtornos mentais. É preciso destacar que medicamentos psiquiátricos não curam nada, apenas amenizam sintomas. É por isso que precisam ser administrados com doses controladas e muitas vezes por toda a vida. Se curassem, haveria um fim. É fato que tais medicamentos ajudam e são importantíssimos em muitos casos, mas sozinhos não resolvem nada, pois estão a melhorar os incômodos que certos sintomas causam, tais como tremedeiras, palpitações excessivas, alucinações, insônia, falta de apetite, dentre outros. Esse é o erro da psiquiatria moderna: acreditar que podem tratar das doenças mentais como se trata uma dor de cabeça, na lógica do "tomou doril a dor sumiu!". No meu entender e na minha experiência, defendo que, para além da doença, é preciso ir ao encontro da pessoa; somente ela é capaz de mudanças significativas.

Para melhor refletir sobre o tema, convido vocês a assistir o vídeo "Medicalização e Sociedade" que trata do tema com simplicidade e maestria. Indico ainda o site medicalizacao.com.br para mais informações.



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9.7.12

A ansiedade e seus possíveis incômodos

Por princípio, a ansiedade é normal, pois é um conjunto de reações orgânicas que preparam o corpo a algo, real ou imaginário. É como se o corpo canalizasse energia para a realização de algo que se espera ou mesmo para se proteger de algo que amedronta. Assim, todas as pessoas já viveram algum momento de ansiedade, seja quando algo muito aguardado está para acontecer, seja com um risco iminente. Alguns sinais bastante comuns  nesses momentos são: inquietação, preocupações constantes, medo, palpitações e tremores. Um ator que prepara uma peça teatral também sente alguma ansiedade, por mais espontâneo que ele seja. É por isso que precisa se preparar bem e ensaiar bastante antes de cada cena, pois quando se sente mais seguro consegue vencer com facilidade os riscos de possíveis erros. O mesmo acontece com uma pessoa que vai para uma entrevista de emprego ou ainda com alguém que se prepara para o nascimento do primeiro filho e mesmo com alguém que caminha na rua sentindo-se inseguro. Estão para acontecer eventos bastante significativos na vida dessas pessoas, o que pode gerar muita expectativa e ansiedade. Todavia, enquanto esta ansiedade permitir uma mobilização e uma preparação da pessoa para tais eventos, podemos considerá-la como positiva. O problema surge quando esta ansiedade é excessiva e atrapalha as suas atividades normais.

Quando a ansiedade se torna um problema mais sério e preocupante? Quando a sua intensidade, frequência e duração aumentarem e passarem a gerar sofrimento psíquico e até alguns sintomas. Ou seja, quando a ansiedade atinge um patamar que extrapola os limites de tolerância da pessoa e atrapalha o seu dia-a-dia. Com isso, a pessoa poderá desenvolver alguns hábitos que a incomodam no seu cotidiano, como preocupações excessivas e antecipatórias, hábitos de roer as unhas, arrancar os cabelos, irritações constantes e corriqueiras, além de sintomas psicossomáticos, como gastrite, acne e enxaqueca. Nestes casos, considera-se que a pessoa tem um transtorno de ansiedade, que deve ser bem avaliado por especialistas e devidamente acompanhado. Recomenda-se o acompanhamento através de psicoterapia e, a depender da intensidade e dos sintomas, de medicamentos.

Como viver com a ansiedade? O segredo de uma ansiedade positiva é saber viver bem cada momento, colhendo os frutos de cada minuto vivido. É saber dominar a própria dinâmica de vida, sem ser dominado pelas suas circunstâncias. Além disso, é sempre recomendado saber organizar bem o próprio tempo, deixando espaços para o descanso, atividades físicas e momentos de lazer.

A edição de hoje do programa Diário Divino, exibido na TV Diário, trouxe a ansiedade como tema e contou com a minha participação. Para quem não pôde assistir ao programa, divulgo aqui no blog o vídeo da edição e recomendo que se assista a este vídeo para complementar a discussão sobre a ansiedade e conhecer alguns casos comuns.



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