Textos e reflexões de Rodrigo Meireles

16.3.11

Em que você acredita?

O destino mudou. Corre na internet a notícia de que o horóscopo que praticamente todos conhecem e que muitos consultam para saber de suas próprias variantes pessoais mudou. Isso mesmo, mudou! Um momento, amigo/amiga, reflitamos: ninguém se perguntou à respeito? E os que acreditam, se perguntaram e continuaram acreditando? Os astros não mentem, mesmo que a leitura deles feita seja totalmente equivocada.

Por que encontramos tantas coincidências entre o que diz o horóscopo (seja o velho, seja o novo) e a própria vida? Uma hipótese é que a consciência humana é facilmente sugestionável, sobretudo em virtude da necessidade de autoconhecimento presente no ser humano. Desde sempre, o desejo em conhecer a própria vida e o sentido da própria existência faz parte do ser humano, que tende a buscar as mais variadas respostas para tanto. A história da mitologia e a evolução do saber científico nos mostra isso. No entanto, algumas dessas tentativas de responder ao desejo de autoconhecimento inerente ao ser humano são parciais e nunca foram demonstradas a fundo. É o caso da astrologia, que alimenta a idéia da influência dos astros do universo na determinação dos comportamentos humanos.

Ora, considerando que o universo é um enorme sistema em que cada partícula, por minúscula que seja, está em constante interação com o sistema, é impossível negar que os "astros do céu" não tenham alguma influência sobre nós. O problema é que mesmo um sistema tão complexo, exatamente por ser complexo, não é capaz de evidenciar todas as suas determinações. No entanto, o imaginário humano foi capaz de enxergar no horóscopo e suas constelações tantas particularidades comportamentais que os psicólogos não teriam necessidade de estudar a personalidade para conhecer as variantes do complexo ser humano.

Mas e você, em que acredita?




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22.1.11

Entre o mar e a poesia

É pensando e cantando o amor que Tico da Costa, compositor potiguar que deixou este mundo em 2009, compôs várias canções e transmitiu alegria onde tocava e passava. Em cada coisa simples da vida, Tico encontrava motivos para cantar as belezas do que colhia, sentindo cada composição como borboletas que vinham ao seu encontro. Não é para menos que para Tico a música opera milagres. Para ele, mestre em cantar a vida malgrado o seu vai e vem, é já bastante pensar no amor para tudo melhorar. Pensar no amor é, então, cantar a vida e seguir o balanço que ela suscita.

Vamos sentir juntos esse balanço e ouvir Só pensar no amor e Vou na onda do mar, duas de suas belas composições. É só dar o "play" e curtir!


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14.1.11

O fenômeno Wikileaks e a transparência política

Nos últimos meses, têm causado furor as divulgações da organização Wikileaks, revelando informações diplomáticas sigilosas de vários países. Tamanhas revelações geraram revolta nos governos mais atingidos, sobretudo os Estados Unidos, que exigem o fechamento do site e a devolução dos documentos vazados. Novamente entrou em cena a discussão sobre a liberdade de expressão, com o risco de uma onda protecionista na internet.

Com esse fato, é importante que nos coloquemos diante de questões sobre a vida pública e a transparência que essa exige, bem como os limites éticos em relação à vida privada. Sobre a vida privada, como já denunciava Michel Foucault e o seu panoptismo, nota-se que seus limites foram bastante diminuídos nas últimas décadas e as pessoas são cada vez mais observadas. Contudo, não entrarei nessa questão. Sobre a vida pública, sobretudo em regimes democráticos, é preciso destacar que essa exige transparência.

O Wikileaks abriu a caixa preta de muitas operações - diplomáticas e militares - realizadas nos últimos anos e a reação gerada foi de constrangimento e de necessidade de proteção. O rei está nu. É do conhecimento geral que nos bastidores da política são emitidas declarações e decisões que ferem a ética e não respeitam o ser humano; em paralelo, é do conhecimento histórico que a humanidade evoluiu na constituição de seus direitos e na proteção de sua espécie. São dois conhecimentos que se justapõem, mas que são vividos na mais falsa harmonia. O "Top Secret" ou decisões que influem diretamente na vida (e na morte) de muitos cidadãos comuns, que nada ou pouco têm a ver com quem toma tais decisões, continua a permear o mundo diplomático e as supostas democracias modernas.

Recentemente foi lançado um documentário ("Wikirebels") que explica bem como nasceu e se desenvolveu a organização Wikileaks, esclarecendo os passos tomados pela organização nos últimos anos. Algumas informações são no mínimo curiosas, como o interesse inicial de governos numa ferramenta como essa. Não é preciso dizer que tal interesse durou até o momento em que os mesmos governos foram importunados com revelações estarrecedoras sobre suas próprias ações, como os crimes de guerra cometidos pelas Forças Armadas dos Estados Unidos no Iraque.

A vida pública exige transparência, sobretudo no que tange à vida de seres humanos e à preservação de seus direitos. Com isso, pessoas públicas, órgãos e governos não podem fazer o que bem entendem, a favor unicamente de seus interesses nacionais ou corporativos.

O debate está aberto e aceso em diversos canais da internet. Dê a sua contribuição e manifeste-se você também. Uma boa dica é assistir ao documentário mencionado, que disponibilizo logo abaixo. Dura cerca de uma hora e está dividido em quatro partes, que podem ser vistas clicando nas setas laterais ou esperando que se abram automaticamente após o término de uma parte anterior. Bom filme e boas reflexões!

 




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26.12.10

A rede social

É bem verdade que o homem é um ser social, dado que não pode sobreviver sem uma relação com algo ou alguém para além de si. Há mesmo quem diga que o homem está diretamente implicado com o mundo no qual vive, com suas nuances e peculiaridades; e há ainda quem afirme que o homem vive em meio ao social e cria laços significativos para a sua existência. No entanto, este mesmo homem, dos tempos modernos ao tempo de hoje, tem atravessado grandes mudanças e vivido alguns fenômenos típicos deste período histórico que parecem contradizer (ou paradoxalmente reforçar) a dimensão social de sua existência. Fenômenos como o individualismo e o niilismo são marcas do homem contemporâneo, como já previa Nietzsche nos anos 1800 e como já havia notado Heidegger em meados dos século passado.

O filme dirigido por David Fincher, "A Rede Social", confirma essa caraterização. Curiosamente um filme que narra a aventura de um nerd cuja principal forma de existência é o computador e que cria uma rede social virtual. A "rede social" que ele cria conecta milhões de pessoas de todo o mundo facilitando a troca de informações, mensagens e até de arquivos, a depender dos aplicativos utilizados. O filme "A Rede Social" não é só a história de criação de um site de sucesso, pois retrata a geração dos jovens de hoje, cada vez mais ávidos por informação e cada vez mais ágeis na obtenção de tal informação.

Sem uma análise mais criteriosa, é fácil perceber que estamos sempre mais conectados, todavia, sempre mais presos e dependentes ao computador, que virou amigo de confiança. A rede social de um suposto mundo virtual ganha força com a troca de informações do mundo real, o que me faz afirmar que mesmo o virtual é real. No entanto, o que está em jogo aqui é a dependência que as ferramentas tecnológicas podem exercer sobre a pessoa, uma vez que criam uma nova forma de intermediário na relação interpessoal. A pessoa tende a depender de algum instrumento para estabelecer ou mesmo fortalecer suas relações, pois ela mesma não é capaz de encarar o mundo e o outro de forma direta como forma de se proteger.

Com as diversas redes sociais espalhadas na internet, é possível perceber que se por um lado elas são bastante úteis para aproximar as pessoas, por outro podem ser prejudiciais quando criam dependência ou quando em nada contribuem para o florescimento das relações pessoais no dia-a-dia de cada usuário. Se há quem se conecte para dizer o que está fazendo ou sentindo para as suas centenas de "amigos", há quem se conecte porque não há amigos de fato e o computador é um intermediário na sua relação com mundo. Em suma, mesmo com a expansão das redes sociais na rede mundial de computadores, não há nada que se compare com os contatos pessoais. Facebook, Orkut, MySpace, dentre outras redes, precisam ser espaços bem utilizados, de modo a complementar ou enriquecer o universo pessoal de quem as utiliza. Do contrário, será somente mais uma evidência do crescente (e paradoxal) isolamento do homem de hoje.

Para finalizar, faço o convite para assistir ao filme citado e tirar as próprias conclusões! São muitas as questões que podem ser levantadas sobre este argumento e certamente poderei retomá-las em outras oportunidades. Enquanto isso, você também pode manifestar as suas reflexões clicando no link logo abaixo do trailer.






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13.12.10

Adagio



O branco no preto

................da vida que dança

............................nas folhas que flutuam

.............................................no vento que empurra

............................................................os pássaros no tempo

.............................................................................................no tempo

................................................................................................................tempo

......................................................................................................................................

É hora de viajar e transpirar poesia ouvindo a suave interpretação de Prelude in B Minor de Serge Rachmaninov (Op. 32, nr. 10), executada pelo pianista italiano Alessio Nanni. Sugiro que se assista em tela cheia (fullscreen).


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11.12.10

Em busca de um sentido para a vida

Compartilho um interessante flash mob realizado em uma estação ferroviária na Bélgica que nos mostra, para além da beleza do evento, a necessidade de algo que movimente as pessoas, sobretudo em um mundo onde prevalece a noite cultural e no qual a escuridão dificulta a visão das coisas e do seu verdadeiro ser.

Percebo neste exemplo que o homem é capaz de fazer qualquer coisa para alcançar a alegria de viver, mesmo em um evento tão fugaz e aparentemente insignificante. Todavia, ainda está paralisado na sua falta de sentido, daí porque facilmente se encanta com a originalidade aparente da loucura. Atrevo a dizer que o homem de hoje ainda não foi capaz de compreender que a pior loucura é o vazio de sentido, e se admira com a aparente loucura dos que ousam fazer atos e gestos diferentes do que regem a norma social. Como podemos no vídeo abaixo, ao som de "Do-Re-Mi", do clássico do cinema "A Noviça Rebelde" (1965), vários dançarinos chamaram a atenção dos passantes de uma estação belga com seus passos coordenados, causando uma grande admiração.

Não surpreende o encanto que podemos colher nos olhares admirados das pessoas que observam ao redor. Todavia, para além do aspecto surpreendente do evento, que chama a atenção pelo inesperado, é possível enxergar na admiração de cada espectador a constatação de que também ele é capaz de fazer algo de diferente, mudando a sua rotina tantas vezes marcada por movimentos repetitivos que nem ele mesmo consegue explicar. Felizmente, embora o passo a ser dado em seguida seja mais difícil do que a constatação das próprias capacidades, é essa constatação que me faz entrever que o homem de hoje pode sair do niilismo que o marca e dar passos corajosos rumo a um sentido para a própria existência.






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4.12.10

NÃO ao PL do Ato Médico

Reproduzo abaixo um manifesto divulgado pelo Conselho Federal de Psicologia contra o Projeto de Lei do Senado 268/2002 (e o PLC 7.703/2006), que visa a regulamentar a profissão de médico no Brasil, mas que há anos vem gerando controvérsias entre os profissionais da saúde. O mesmo PL já sofreu várias modificações ao longo dos anos, mas continua a restringir a atuação dos demais profissionais de saúde, além de colocar em cheque os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) no que tange o acesso livre do cidadão aos serviços de saúde.

Nós, profissionais da saúde, convidamos toda a classe médica para um debate democrático que vise a regulamentação da profissão médica sem, com isso, cair num corporativismo capaz de minar o conhecimento e a prática dos demais profissionais. Todas as profissões de saúde têm de estar a serviço da vida e do cidadão e a regulamentação de cada profissão não pode estar acima disso.

Para conhecer os vários Projetos de Lei que tramitaram entre os parlamentares ao longo dos anos, clique aqui.

Manifesto do CFP (03/12/2010)

Ato Médico: PL não é consenso entre as profissões da saúde

Uma tentativa de colocar o Projeto de Lei nº 268/2002, conhecido como Ato Médico, na pauta do plenário do Senado Federal em regime de urgência, sem que tenha havido consenso entre os diversos setores da área da saúde, foi realizada na tarde de quarta-feira, 1 de dezembro de 2010, quando representantes da classe médica foram ao gabinete do senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, fazer a solicitação. Não há um texto de consenso para o PL, ao contrário do que vem sendo anunciado por setores da medicina.

A possibilidade de votação do PL a toque de caixa, no final da legislatura, preocupa as profissões da saúde, pois não foi realizada uma discussão mais ampla no Congresso e o debate, definitivamente, não foi amadurecido na sociedade brasileira, que é a maior prejudicada pelas mudanças. O PL do Ato Médico, tal como está, interfere diretamente no funcionamento do Sistema Único de Saúde. Se aprovado, o PL afetará a todos os usuários do SUS. Ademais, o projeto ainda não passou por todas as comissões que deve passar no Senado.

Em reunião com o presidente do Senado Federal, José Sarney, na terça-feira, 23 de novembro, representantes de conselhos profissionais, fóruns e associações de profissionais e usuários da saúde expuseram suas preocupações em relação ao PL. Na ocasião, Sarney assegurou que o projeto não entraria na pauta em regime de urgência e reconheceu que o assunto é controverso. “Não vamos colocar em urgência, estou vendo que é um assunto controvertido”, afirmou o presidente do Senado.

Estiveram na reunião conselheiros do Conselho Nacional de Saúde (CNS), representantes do Fórum das Entidades Nacionais dos Trabalhadores da área da Saúde (Fentas), da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS), dos Conselhos Federais de Psicologia (CFP), de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Cofito), de Fonoaudiologia e de Enfermagem. O movimento contra o PL do Ato Médico reúne entidades e associações de diversas profissões da saúde.

O chamado Ato Médico interfere na autonomia do trabalho das profissões da saúde e causa danos ao SUS ao prejudicar o atendimento integral à saúde da população. O debate é essencial para que seja garantida à sociedade o direito do atendimento multiprofissional.

Clique aqui para aderir à campanha virtual e enviar manifesto aos senadores.

Conselho Federal de Psicologia



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30.11.10

A fonte das prospecções

Era uma família como todas as outras, o pai e a mãe trabalhavam e os dois meninos estudavam regularmente. Saíam de casa com certa freqüência e tinham muitos amigos, que os faziam ter sempre muitas opções extras de lazer, além da corriqueira rotina.

Mas um desses meninos queria muito mais. Não bastava a sua vida comum de um menino comum no alto dos seus normais e comuns oito anos. Não servia muito saber que na sua idade a brincadeira ainda estava em voga e a ele não interessava nem mesmo saber a que nível se encontrava em meio aos seus estudos. O menino queria ser grande e procurava se encontrar sempre mais longe do que a sua imaginação permitia.

Um certo dia, estava ele defronte a uma fonte que jorrava sem parar fortes jatos d’água em três direções. Olhou para essa fonte e compenetrou-se nela; olhou-a não como um simples turista olharia, mas via cada gota de cada jato, e, na transparência dessas gotas, aquele olhar ia mais além. Via o futuro e viajava em seus sonhos que voavam naquelas gotas.

Um brilho exuberante parecia nascer daquela fonte à medida que o menino aprofundava o seu olhar. Inúmeras gotas, inúmeras idéias, inúmeras tarefas, inúmeras pessoas, inúmeros projetos. Imagens que viajavam na sua mente infantil na velocidade de cada gota que via passar. Ele estava longe, absorto nos seus pensamentos. A sua vida de menino não era o bastante para o que havia em mente. Nada mais importava senão o querer adaptar-se imediatamente a uma situação que estava além do que ele poderia realmente ser. O seu mundo estava formado e desde então idealizado em forma de gotas viajantes.

Após alguns minutos, os jatos foram aos poucos se enfraquecendo e as gotas paravam de jorrar na mesma intensidade. Também aos poucos o menino perdia forças e a energia que parecia emanar do vislumbre das gotas da fonte sumia conforme a mesma era desligada. Logo ele definhou e se foi, perdendo seus sonhos em gotas e atirando-se no martírio dos próprios desejos.


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