Textos e reflexões de Rodrigo Meireles

5.7.13

Torta de Limão

Não resta dúvida que comer é um dos melhores prazeres da vida! Mesmo sem alimentar a gula, é possível viver bem este prazer. Contudo, não há melhor prazer do que aquele fruto do Amor concreto de alguém. É exatamente por isso que cozinhar é uma arte... sobretudo, quando feito por Amor. Não faria sentido cozinhar somente para si. Não é à toa que a alegria do cozinheiro é saber que sua arte é apreciada, como todo bom artista.

Compartilho uma das receitas que mais gosto de preparar: a Torta de Limão, que é uma das tortas mais apreciadas no Brasil. A depender de quem a prepara, apresenta algumas características que variam o seu sabor e a sua consistência. Há quem goste de uma torta mais doce e há quem a prefira ligeiramente mais azeda. Há também quem goste de uma massa mas flexível e aqueles que preferem uma massa mais rígida, dentre outras variações, como o merengue. Em meio a certas variáveis, espero explicar passo a passo como é a minha Torta de Limão, mas antes... quero destacar que prefiro pensar em uma culinária com sabor significativo, ou seja, que permite àquele que saboreia uma experiência inesquecível com o que está saboreando, ainda que por um tempo tão breve. É por isso que procuro dar às minhas receitas um destaque especial ao seu sabor principal, de modo a fazer jus a seu nome e ao sabor que promete.

Assim, procurei pensar e preparar uma Torta de Limão com sabor forte, ao mesmo tempo leve e marcante, procurando destacar o sabor do limão. Além disso, pensei numa massa com uma consistência semelhante a de um biscoito, de modo a facilitar o corte e sustentar melhor as camadas de recheio e de cobertura. O segredo está no limão e no teor de açúcar. Resultado: é uma torta tão saborosa que é capaz de nos levar ao céu por alguns instantes. Daí porque também mereça um suspiro especial... e cremoso.

Vamos à receita!

Ingredientes:

Massa

 - 3 xícaras (chá) de farinha de trigo
 - 6 colheres (sopa) de manteiga ou margarina sem sal
 - 200ml (1 caixa) de creme de leite
 - 1 1/2 colher (chá) de fermento em pó

Recheio

 - 2 latas de leite condensado
 - 8 limões galego (pequenos)
 - raspas de limão

Cobertura

 - 3 claras de ovo
 - 3 colheres (sopa) de açúcar

Modo de preparo:

Massa

Numa bacia ou sobre uma pedra, coloque a farinha, a manteiga, o creme de leite e o fermento. Misture-os com as pontas dos dedos, até que a massa solte completamente das mãos. Deixe descansar por cerca de 30 minutos na geladeira. Abra a massa, forre uma fôrma de teflon (22 cm de diâmetro), fure o fundo com um garfo e asse em forno médio-alto (200°C), por cerca de 20 minutos.

Recheio

Misture o leite condensado com o suco de 8 limões galego (não adicione água ao suco, apenas esprema os limões) e bata no liquidificador por alguns minutos. Reserve.

Cobertura

Bata as 3 claras de ovo junto com o açúcar até ficar bem cremoso, formando um merengue saboroso e leve. Acrescente um pouco de raspas de limão e misture.

Montagem e finalização

Pegue a fôrma reservada com a massa e despeje o recheio. Em seguida, coloque o merengue por cima do recheio, espalhando-o bem. Para decorar, brinque de fazer algumas formas no suspiro com as pontas do garfo. Em seguida, leve para assar em forno médio por alguns poucos minutos, até que a cobertura comece a ficar dourada. Após tirar do forno, espalhe o restante das raspas de limão por cima, para decorar. Deixe esfriar e leve para a geladeira por ao menos uma hora antes de servir. Sirva fria.

Serve de 8 a 10 porções.

Bom apetite!





Continue lendo

27.12.12

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Continue lendo

18.12.12

28.10.12

A Política

O futuro é hoje, vivo e atualizo isso no meu dia-a-dia. Não obstante as tantas dificuldades, as disputas, os confrontos (tantas vezes feito de maneira forçada e apelativa, até violenta), vejo-me muitas vezes sem forças para ir adiante e me sinto pequeno diante de todas essas coisas. O mundo é muito maior do que eu. Contudo, a cada pessoa que me procura, a cada energia que dispendo na escuta ativa de algum sofrimento, a cada olhar perdido que encontro, descubro que mesmo pequeno não existo à toa e não sou em vão. Posso amar e me encontrar naquele outro. Posso crescer e ampliar o meu olhar em um tu que, por alguns minutos, também sou eu, imerso neste mundo e na existência. Esta é a minha experiência diária, que procuro renovar a cada novo raiar do sol. Esta é a minha Política.

Contudo, esta Politica se estende para além de mim. Forma grupos, instituições, organizações em prol de algo comum. Eis que temos também os partidos, eis que temos ainda os interesses e as conveniências, alimentadas pelas ideologias. Eis que temos a democracia, mesmo em suas contradições ou incompletudes. Eis que temos o futuro, no presente cheio de conflitos e em crise e que suscita novos movimentos, novos olhares e novas formas de ação. Se apenas fazemos leitura de momentos, corremos o risco de cairmos constantemente na espiral hegeliana, em que tudo flui e se atualiza historicamente, não importa como e para onde. Não, não vejo que a Política seja uma coisa de momento, acredito ser este um erro hermenêutico. Penso na Política inserida na cultura, de forma anterior a ela, mas que ocorre mesmo "distorcida" pelos fatos. Não é mera criação dos homens para uma vida social, mas fundamental e necessária para sua sobrevivência, no seu ethos.





Continue lendo

24.10.12

Piccolo

Piccolo. Forse non trovo altro modo di descrivermi dinnanzi alle situazioni che trovo nel mio quotidiano. Sia nel lavoro sia camminando sulle strade della città, mi sembra di vedere la distruzione della vita e dei rapporti personali a nome di interessi particolari o di un supposto potere. È certo che non posso generalizzare, ma è sintomatico vedere nella gente le parole già previste da Nietzsche e approfondite da Heidegger sul nostro tempo e il suo vuoto, il buio culturale.

La violenza è diventata banale. Non importa se uno muore e come muore. La politica mantiene gli stessi vizi lungo gli anni. Anche se cambiano le persone, continua la stessa, con qualche rara novità. Il mercato continua a dettare le regole del gioco con la sua supposta mano invisibile ed ancora influisce sui comportamenti delle persone. La gente continua a preoccuparsi con le proprie vanità e a perdere la fiducia nell'altro, che tante volte rappresenta una minaccia ai propri interessi. Persino la gente che va nelle chiese sembra cantare lodi vuote, come se sperasse che qualcosa accada magicamente dai cieli.

Può darsi che per qualche regola ci sia un'eccezione, ma sono ancora poche dinnanzi a questo complesso sistema di avvenimenti. Per cambiare questo ci vuole il coraggio per illuminare il nostro tempo con l'Amore vero, incondizionato e fraterno. Non possiamo permettere che il senso delle cose si svanisca davanti ai nostri occhi e rimaniamo attoniti, senza parole o azioni concrete, ad aspettare la fine.

Sono piccolo e a volte mi sento da solo in quest'impresa, ma posso realizzare il poco che mi definisce e collaborare con la piccola porzione di umanità che mi è stata affidata e con la quale mi trovo, anche se casualmente, giorno dopo giorno. Spero di scoprire in ogni persona un altro Volto, che mi permetta di descrivere la speranza e le tracce di un altro modo di vivere (non limitato a pochi, ma comune a molti), di un mondo libero, fraterno e dove regni la pace.

Rimango piccolo, ma, come un seme, posso germinare e rendere frutti incalcolabili nel poco che sono, se mi lascio guidare dall'Amore vero. È difficile, ma in quest'utopia trovo un cammino.



Continue lendo

9.10.12

Comédia Intocável!

Se você aprecia uma boa comédia, sem apelações e com um toque de profundidade, assista o filme "Intocáveis" (França, 2011). O grande sucesso francês do momento é uma comédia bem elaborada, baseada em fatos reais, que destaca o relacionamento entre um personagem da periferia e um milionário tetraplégico.

Em divertidos encontros, o filme revela o desenvolvimento de uma amizade sincera, autêntica e espontânea entre dois personagens de origens bem distintas, que resulta em ótimas gargalhadas. O que chama atenção nesta comédia é o fato de  que para rir não é preciso apelar para o ridículo, destacando a profunda e sincera relação que nasceu entre os dois. Os personagens revelam-se sem máscaras e realizam um encontro cheio de contrastes em que ambos permitem se conhecer e aceitar as diferenças. Tudo, porém, com bastante leveza, música e ação.

O roteiro foi inspirado na vida do milionário tetraplégico Philippe Pozzo di Borgo e de seu enfermeiro, Abdel Selou (representado no personagem Driss). O primeiro escreveu um livro intitulado "O Segundo Suspiro", registrando cada frase em um gravador. Ainda vive na França com a família, mas o seu fiel companheiro casou-se há oitos anos, teve três filhos e mudou-se para o Marrocos. Com a própria história, eles mostram para o mundo de hoje que é possível superar as dificuldades, construir uma sólida amizade e ter uma vida feliz.





Continue lendo

3.10.12

O tempo nos desfolha - Francisco Carvalho

Foto de Fabiana Guimarães.
O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.


In: Carvalho, Francisco. Jornal de Poesia.
Continue lendo

4.9.12

Fé e Vida

É bem verdade que ter fé é crer. É ter "a convicção de fatos que se não vêem" (Hb, 11:1). É escutar e acreditar em fatos que virão. Porém, o ato de ter fé não pode ser confundido com espera sem vida. Requer ação, dedicação e transformação. Quem apenas espera, mantém-se alheio ao contínuo  processo criativo, próprio de sua natureza. Ter fé não é esperar, é acreditar em algo maior e viver conforme o que acredita, buscando-o incessantemente.

Nas Sagradas Escrituras encontramos uma belíssima carta de testemunhos sobre a fé no livro dos Hebreus, todos demonstrando como seguiram o que acreditaram. Abraão, Abel, Enoque, Noé e Sara, dentre outros testemunhos, tiveram fé. Nenhum deles, porém, apenas acreditou e esperou. Fizeram sacrifícios, percorreram caminhos desconhecidos e acreditaram em fatos logicamente impossíveis porque acreditaram e se lançaram na fé.

Também no Evangelho de Marcos encontramos um testemunho de fé quando uma mulher tocou as vestes de Jesus porque acreditara que aquele gesto a curaria. Sentindo que algo acontecera, Jesus encontrou-a em meio à multidão e disse: "Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada deste teu mal" (Mc 5: 34). Também neste episódio não houve espera. A mulher acreditou e foi ao encontro de Jesus.

A fé é também sinônimo de confiança em algo maior e invisível, que nos liberta e nos permite viver para além do que vemos, tocamos e sabemos. A fé nos salva porque nos permite acreditar que há algo maior pelo qual viver e pelo qual dar a própria vida. Com a fé, é possível ir além de si para amar, transcendendo-se. Desta forma, se alguém que acredita em Jesus apenas espera milagres, nada entendeu sobre a própria fé. Para estes, ter fé é muito fácil e cômodo, pois apenas acreditam, mas não saem da própria zona de conforto e não se lançam no que acreditam, isto é, não amam. A fé nos convida a amar. Se alguém acredita em Jesus e quer que Ele se manifeste, precisa ir ao encontro dele através do amor. Afinal, disse Jesus, "(...) aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele" (Jo 14:21).

Assim, ter fé não é apenas acreditar, pois requer ação, requer amor. Amar é "ir ao encontro de", doar-se, transcender-se. Não se faz isso apenas com palavras, louvores ou com a mera devoção, mas com atos concretos. Ter fé, portanto, requer viver com o horizonte aberto e lançar-se, mesmo na escuridão, naquilo em que se acredita. Fé e vida, confiança e amor, emunah e ahavaη πίστη e αγάπη, são conceitos inseparáveis e não podem ser plenamente compreendidos e vividos distintamente.


Continue lendo